6 de abril de 2011

Amante

Eis me aqui entre encantos delirantes, tenros e absurdos; eis me aqui para você. Para que experimente e se deleite suavemente, mas com hora para acabar. Entre e feche a porta, se dispa e se deite, já estou em aconchego a te esperar no nosso leito – nosso – por hoje e é assim.

Declame belas palavras, provoque os toques e carinhos, os anseios a que vem procurar. Estou aqui para ofertá-los e sabes que não peço nada em troca porque este é o meu lugar.

Estais aqui com toda esta aflição e me puxa para dentro de ti, te empurra para dentro de mim. Há tanto ódio e nenhum pudor. Desejos infinitos, cartas sobre a mesa e duas taças no chão. Recanto de paixão descompensada, de fúria e de força, de medos e de gozo. Sem espaço para problemas e cobrança, o que não torna menos cruel.

Então você vem e possui o meu corpo, simplesmente o entrego absorta e sinto uma vã solidão. Pois que sei que não se entrega completamente, apenas prova meu sexo e até quem sabe minha ira, deixando-me acompanhada de lágrimas, abraçando o travesseiro e em completo marasmo.

Outro dia retorna com a certeza de que as portas estarão abertas para que possas entrar e sair a sua vontade. Encontra-me na sacada vestida de vento, tragando meu último cigarro junto com o pouco de vida que me resta. A vitrola chora ao som de blues, as garrafas já estão vazias assim como minha alma solitária fadada à este destino. Sigo com o coração cheio de sonhos e o corpo marcado por aqueles que dele usufruem e depois o abandonam nesta mesma sacada.

4 de abril de 2011

Eu e Você

E então tu chegaste, cheia de brilhos, de cheiros, de sotaques e um jeito inigualável. Trocamos sorrisos, olhares e algum gosto incomum. Tuas palavras ainda ecoam em meu pensamento e não consigo te esquecer. Da tua cor, da tua pele e o toque que me fez tremer.

Consigo sentir, talvez até com a mesma intensidade, teus cabelos enrolados em minhas mãos. Cachos perfeitos, macios, deslizando por entre os dedos. O hálito quente sussurrando no meu ouvido. Palavras sem sentido, as quais não sucumbi. Está gravado em minh’alma, tão profundo, imponente como se nem que quisesse poderia tirar. Sinto teu cheiro no meu corpo, nas minhas mãos, sinto tua pele rente a minha, sinto o calor emanando dela, te sinto com o mesmo tino. É como se estivesse aqui me olhando, com aquele olhar penetrante, tão cabuloso, que não consigo me despistar dele. Sinto nossos corpos comprimidos e a vontade louca de se fundir. Incorporados como um só. Os suores escorrendo por entre nós dois, o peito arfante, a dor. Algo tão forte, mas tão cruel. Tua voz rouca ecoa aqui dentro, pedindo mais, querendo mais. Teus lábios doces encostados nos meus, a saliva percorrendo meu peito, as mãos, o desejo. Tudo está cravado em mim.

E neste momento onde estará? Pregando o mesmo desejo na alma de um outro qualquer. Ah, mulher... Se soubesses o quanto machuca não faria tal coisa novamente. Eu consigo ver com tanta perfeição teu sorriso lascivo, nossos olhares e a vontade surgir. Posso te sentir me tocando, tua força a me puxar para ti com tamanha euforia. Que fez de mim eu não sei. Seria capaz de encontrar-te agora neste instante, em qualquer lugar deste meu mundo, e entrar por tua roupa, passar por entre as pernas, os seios, beijar teu pescoço. Sentir tua pele arrepiada e tua mão em minha nuca me pedindo pra ficar. Mas onde estará?


Eu andava por aí, nem sei se perdida, mas andava. Sem rumo ia em direção do vento – rede moinho . Sabia que se eu deixasse por aqui os ventos ainda seriam capazes de jogá-los aos meus pés e invadir minhas entranhas, arranho, lanho, eu me descabelo, prometo o mundo, um filho, os deixo de quatro e escapo antes do crepúsculo chegar, levanto e sigo o vento.

Deixei provar meu sexo, mas não minha vida. Provar quem sou? Me reprovar por cair aos pés das camas alheias? Só provo aquele que me caia nas graças – pra ele desgraça – e me dê gargalhadas. Me desgarro sempre para seguir meus próprios passos, ir em frente com minhas próprias indecisões, me perder sozinha e me achar nos braços iludidos de outrem.

Mas se realmente precisa saber quem sou eu, onde eu estou comece a me procurar onde eu só poderia estar. Faça intervenções para que não me debruce em mais ninguém, que teus preceitos e angústias não existam mais. Que a falta que te faço também se extinga e assim você me possua por inteiro, rasgue minhas roupas e me dispa com ardor, selvagem como mereço, como te pedi. Me procure, me espere, pois estou eu no único lugar onde ainda não me procurou, onde nem mesmo a vida poderá me tirar de você, estou na sua imaginação e somente lá estaria, mas ainda pode me deixar escapar para outros laços.


30 de março de 2011

esquinas...

Ele atravessa essas ruas escuras, infames e difamantes. Segue tateando a escuridão sem ver um palmo a sua frente, mas segue. É firme nos seus propósitos e objetivos; ele está cansado de cair; ele está cansado de sangrar; ele não pode mais gritar e segue... É seu destino. Se agarra em qualquer fio de esperança e segue. Procura por portas, por brechas, por buracos e não encontra, pois não há, está tudo selado e ele não consegue ultrapassar. Ele não pode na verdade porque sente uma barreira invisível, uma barreira obscura feita de velhos rostos e solidão.


Anda e passa em todas as esquinas. Esquinas vazias, muitas pegadas e nenhum sinal de sobre vida. Agora consegue ver uma luz ou outra, vez enquando elas acendem e tornam-se a apagar em instantes, num piscar de olhos. Falar em olhos, agora ele se sente observado, sente algo sombrio por detrás, mas não teme. Ele já passou por isso e sabe ter cautela, sabe ter paciência. Sente-se incomodado aos olhos do observador e quando se estagna já não o sente mais, tão rápido quanto as luzes, os olhos se foram ou se fecharam para não o ver.


Ele pára em uma esquina, senta derrotado. Contempla as estrelas e pede forças para não desistir. Eis que vê a mais sublime forma emoldurada por uma luz ofuscante, parece estender-te a mão e ele oferece a sua em retorno, sem hesitar. Então se dá conta de ter sido apenas um sonho, uma visão. Pensa: será que estou aqui sozinho? Será que ninguém mais tentou? Não, óbvio que não. Ele insiste, as estrelas mandaram força e comprometimento, portanto ele segue. Levanta e sai da esquina, cambaleia no breu e continua trôpego, mas sóbrio e são. Tão certo da sua decisão.


Percebe passos, outros que correm pelas ruas. Serão estes que deixaram as pegadas que vira há pouco? Ele pára e se dá conta de que não está sozinho, na verdade, nunca esteve. Esse lugar misterioso, sombrio e impreciso é habitável e habitado. Parece não ter lugar pra ele, mas ele teve que ter certeza disso sentindo presenças inconstantes, aqui é cada um por si. O amor não desistiu só que agora já sabe, muitos entram, alguns ficam, porém, não é possível domá-lo, dominá-lo. Só entende quem vive aqui e se acostuma, esse lugar é meu coração e ele é terra de ninguém.
"Não é porque certas coisas não mudam, que significa que elas sejam imutáveis. A mudança precisa vir do âmago e não devemos esperar que seja recíproca."
Eu viajo com os pés no chão. Fecho os olhos e me teletransporto. Tenho idéias tão loucas que só na minha cabeça já me fazem delirar. Consigo sentir esse prazer na ponta da língua, nos meus ouvidos e na pele arrepiada.


Quem me vê nesse transe lúdico deve ter as mais diversas concepções, e quem disse que eu me importo? Sou um louco assumido, viajo a toda hora, minha cabeça é cheia de países, sonhos, pessoas e até mundos. Vivo munido de toda fertilidade de pensamentos, imaginações... Os olhos fechados são meu passaporte.


Isso é importante? Não, só mais um devaneio meu. Quando abro os olhos volto à realidade insossa, desgastante, que consome minhas energias, mas não me proporciona nenhum prazer.

29 de março de 2011

Adrenalina

É que meu coração é movido a altas doses de adrenalina. Se ele não acelerar sempre não consigo viver. Não gosto de nada morno, eu gosto do que me tira o fôlego e me faz flutuar... Por isso sou uma colecionadora de amigos, amores e muitas aventuras.


E são essas emoções que, por vezes, me deixam em êxtase supremo, que me dão a sensação de que os pés tocam o chão somente quando necessário e quando não estou com um amigo a mil gargalhadas - sem medir os decibéis - com um amante em delírios, em planaltos sobre meus saltos ou por aí, por qualquer lugar me aventurando só ou acompanhada de alguém que não eu mesma.


Mas ainda que pudesse ser possuída por tais mãos, boas ou ruins, de mãos dadas ou entrelaçadas em meu entorno e eu em torno delas, não buscando firmeza, mas sim o calor ardente que me faz sentir viva e novamente pronta pra me aventurar por qualquer destino e para abraçar meus amigos. Apenas para guardar vocês em meus copos de cristal.


É essa adrenalina que faz bombear a minha vida e quem não puder me acompanhar que nem venha. Não se atreva! Só pode estar aqui quem ousa e quem gosta de uma boa dose de "tudo um pouco". Porque eu me arrisco e essa é a essência do meu ser, e se quiser que me aceite deste jeito. Sem tirar nem pôr!




-




Textinho desenvolvido por mim e pelo Rubens, pessoa que descobri ter o mesmo gosto exótico pela escrita tanto quanto eu (rs). Abaixo um texto de Gabriel García Màrquez, que segundo minha irmã, é uma idéia parecida com a do texto acima:


"Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.


Não me apetece ver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.


Quero grandes histórias e estórias; quero amor e ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é de mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando digo convicto que "nada é para sempre"."




nota: No meu texto eu denoto a palavra adrenalina no seu sentido mais puro, e acho que no texto do García fica mais explícito o que é a adrenalina no nosso contexto: algo que realmente nos faz liberar e sentir prazer. O que não necessáriamente precisa ser um ato, mas sim, a vontade e coragem de sempre ir mais além, sem medir os riscos. Porque independente do que resulte, o momento é que faz transpirar a adrenalina, passando por cima dos medos e vivendo sem meio termos, sendo precisos e principalmente sem pensar no que há de vir amanhã.

11 de janeiro de 2011

Carta nº 147

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está , que tem saudade... Sei lá de quê!"

(Florbela Espanca)